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CRÔNICAS LÍRICO-REFLEXIVAS
Lembranças e Esperanças
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NÃO FOI BOTO, SINHÁ!

Dizem que, nas noites de festa, um boto sai do rio vestido de branco.

Usa chapéu para

esconder o alto da cabeça, dança com a moça mais bonita e desaparece antes do amanhecer.

Quando nasce uma criança sem pai declarado, alguém olha para a água e diz: “Foi o boto.”

Sou um tucuxi. Conheço a força que uma história adquire quando é contada muitas vezes.

Conheço também o rio, onde passo meus dias seguindo cardumes e subindo à superfície para

respirar. Nunca precisei de roupa branca.

Nunca fui a uma festa. E, se pudesse escolher um

chapéu, escolheria um que me protegesse do sol, não um que escondesse minha cabeça.

Gosto de ouvir as pessoas nas margens. Há quem conte a lenda com alegria, fazendo as

crianças arregalarem os olhos.

Há quem a conte para que ninguém faça outra pergunta. A diferença está na voz. A primeira convida a imaginar; a segunda pede silêncio.

Certa vez, ouvi uma mulher dizer que sua filha esperava um bebê.

Uma vizinha perguntou pelo pai. A mulher demorou a responder. Olhou para a casa atrás de si, depois para o rio. “Foi o boto”, disse tão baixo que quase não escutei. As duas ficaram caladas. Eu mergulhei, mas a voz dela me acompanhou debaixo d’água.

Desde então, penso nas verdades que uma família pode ter medo de dizer. Às vezes, um homem abandona a mulher e a criança. Às vezes, tem uma posição que o protege, enquanto ela enfrenta sozinha as perguntas de todos. Às vezes, houve ameaça, violência, um crime.

Não sei o que aconteceu naquela casa, e seria injusto fingir que sei. Sei apenas que a resposta dada à vizinha não permitiu perguntar por um homem.

Na festa seguinte, vi da água um sujeito parado à sombra de uma árvore. Não trazia chapéu branco. Conversava com os outros, ria quando alguém repetia a história do boto e, ao ouvir o nome da moça, baixava os olhos.

Talvez soubesse de alguma coisa. Talvez não. O que me espantou foi a facilidade com que todos procuravam no rio um pai e deixavam em paz os

homens que estavam na margem.

A criança nasceu meses depois. Alguém a chamou de filha do boto, como se aquilo resolvesse sua origem. Ela era pequena demais para compreender o apelido. Dormia no colo da mãe, acordava com fome e fechava a mão em torno de um dedo oferecido.

Não carregava culpa alguma por ter vindo ao mundo. Quando crescesse, talvez lhe contassem que seu pai desaparecera nas águas. Talvez passasse anos acreditando que nenhum pai humano existia para ela.

As crianças gostam de me ver. Quando minha barbatana rompe a superfície, apontam e

gritam meu nome. Gosto de voltar para que me encontrem outra vez.

Aquela menina poderá fazer o mesmo. Se um dia me vir, quero que conheça o tucuxi que sou: um animal do rio, capaz de mergulhar fundo e de nada dizer sobre a vida de sua mãe.

A resposta que talvez procure pertence às pessoas que ficaram em terra. Continuarão contando que um boto veste branco e dança até o amanhecer.

Não peço que deixem de contar. As histórias fazem companhia às noites da Amazônia. Peço apenas que, diante de uma mulher com medo ou de uma criança à espera de resposta, ninguém use a minha para encerrar a conversa. Se houve abandono, alguém deve assumir a responsabilidade.

Se houve violência, a mulher precisa ser ouvida e protegida. A criança merece cuidado e a verdade

que for possível conhecer.

Quando subi para respirar naquela manhã, vi a mulher à beira da casa com a filha nos braços. Ela não olhava para o rio. Olhava para a estrada. Fiquei um instante à superfície e segui meu caminho.

Se alguém voltar a perguntar por mim, ela poderá dizer o que desejar sobre a lenda. Sobre aquela gestação, só há uma coisa que eu mesmo posso afirmar:

— Não fui eu, sinhá.

Américo Sena
Enviado por Américo Sena em 01/10/2026
Alterado em 02/10/2026
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