Belém vive quase debaixo do Sol. Não é apenas uma maneira de falar. Estamos próximos da Linha do Equador, onde o Sol parece conhecer poucos atalhos e, em certas horas do dia, cai quase vertical sobre a cidade. Ele bate nas mangueiras, atravessa as copas das árvores, acende o verde das praças, esquenta o asfalto e faz o paraense procurar instintivamente o lado sombreado da calçada.
Há muito tempo é assim. Mudaram os automóveis, os prédios, as roupas, os hábitos, os ruídos e a pressa. O calor, porém, continua chegando como um velho conhecido.E, na Praça Batista Campos, uma mulher permanece sob esse Sol. Nua. De bronze. Imóvel. Um de seus braços sobe em direção ao céu. O outro parece proteger o rosto. Há algo naquele gesto que permite muitas interpretações.
Talvez procure defender os olhos da claridade
equatorial. Talvez queira enxergar alguma coisa além das árvores. Talvez apenas execute, eternamente, o movimento que o artista lhe concedeu. Mas gosto de imaginar que ela esconde o rosto. Não o corpo. O rosto. E essa diferença
diz muito.
A nudez está completamente exposta, enquanto os olhos parecem procurar abrigo. Quem passa depressa talvez nem perceba essa contradição. Afinal, existem monumentos que, de tão presentes, acabam desaparecendo. A cidade também produz invisibilidades.Aquilo que vemos todos os dias chega a um momento em que deixamos de olhar.
Quantas pessoas atravessaram a Praça Batista Campos diante daquela mulher? Quantas gerações? Quantos estudantes carregando livros? Quantos funcionários atrasados para o trabalho? Quantos casais começaram ali um namoro que depois virou casamento — ou apenas lembrança? Quantas crianças correram pela praça enquanto os pais conversavam? Quantos idosos procuraram um banco à sombra para descansar?
Todos passaram diante dela. Poucos realmente a viram. Ela, entretanto, viu todos. Se uma estátua pudesse guardar memória, talvez aquela mulher soubesse mais sobre Belém do que muitos arquivos. Teria observado a cidade mudar de roupas.Viu desaparecerem costumes e surgirem outros. Assistiu à transformação das ruas, dos
transportes, dos namoros, das famílias e da maneira como as pessoas ocupam os espaços
públicos. Viu uma Belém mais lenta.
Agora contempla uma Belém que corre. Talvez por isso continue com o braço erguido, como se tentasse chamar nossa atenção:
— Ei, vocês ainda sabem olhar?
Mas imagine que, numa manhã qualquer, acontecesse algo inesperado. Nada grandioso.
Nenhuma reforma na praça. Nenhum monumento novo. Apenas um vestido. Um simples vestido
branco de renda cobrindo o corpo de bronze. O que aconteceria?
Tenho quase certeza de que as pessoas parariam. A mulher que durante décadas permaneceu nua e quase invisível imediatamente seria vista. Alguém fotografaria. Outro perguntaria:
— Quem colocou esse vestido nela?
Alguns achariam bonito. Outros considerariam absurdo. Haveria quem defendesse a nudez original da obra. Haveria quem elogiasse a delicadeza da renda. Talvez alguém
enxergasse humor. Outro, poesia. Outro, provocação. E muitos daqueles que jamais haviam
percebido a estátua descobririam, naquele instante, que ela sempre estivera ali.
Eis a ironia.Foi preciso vestir a Mulher Nua para que percebessem sua nudez. O vestido quebraria a
expectativa. Mas talvez fizesse algo ainda mais interessante: quebraria nossa indiferença. Porque não seria propriamente o vestido que causaria estranhamento. Seria o olhar. O nosso.
Durante anos aceitamos aquela nudez porque aprendemos a não a enxergar. Ela passou a fazer parte da paisagem como os bancos, as árvores, os caminhos e os pássaros.O bronze tornou-se cotidiano. E o cotidiano tem esse estranho poder de transformar o extraordinário em banal. Talvez a verdadeira nudez da praça não esteja, portanto, no corpo daquela mulher.
Há outras nudezes. Há as vergonhas expostas de uma cidade que envelhece sem que percebamos. Há patrimônios diante dos quais passamos sem conhecer a história. Há prédios antigos que
somente despertam atenção quando ameaçam desaparecer. Há árvores que só lembramos
quando são derrubadas. Há memórias que valorizamos apenas quando já estão quase perdidas.
Essas também são formas de nudez. E talvez sejam mais incômodas do que um corpo de
bronze. A mulher continua lá. Sem reclamar do calor. Sem fugir da chuva amazônica que despenca de repente e lava as folhas, as calçadas, os bancos e seu corpo metálico. Depois volta
o Sol. Sempre ele. O mesmo Sol equatorial que iluminou a Belém de nossos antepassados e continuará iluminando uma cidade que ainda não conhecemos.
E ela permanece. Observando. Talvez a pergunta, então, esteja invertida. Durante muito tempo
perguntamos:
- o que vemos quando olhamos para a Mulher Nua?
Talvez devêssemos perguntar:
- o que a Mulher Nua vê quando olha para nós?
Ela vê pessoas apressadas. Vê encontros. Despedidas. Amores começando. Amores
terminando. Crianças crescendo. Velhos recordando. Gerações inteiras atravessando a mesma praça acreditando que estão apenas passando por ela.
E, enquanto todos passam, somente ela permanece. Talvez esconda o rosto não por
causa do Sol. Talvez tenha visto demais. Ou talvez seu gesto seja um convite silencioso para
fazermos aquilo que a pressa da Belém de hoje quase nos fez esquecer:
- parar e olhar.
E perceber que uma cidade não é feita apenas daquilo que está diante dos nossos olhos, mas também daquilo que, de tão familiar, já não conseguimos enxergar.
Na Praça Batista Campos, sob o Sol da Linha do Equador, existe uma mulher nua.
Talvez ela nunca precise de vestido.
Talvez sejamos nós que precisemos despi-la da invisibilidade!