× Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
CRÔNICAS LÍRICO-REFLEXIVAS
Lembranças e Esperanças
Textos

BELÉM DE OUTRORA, BELÉM DE AGORA

Parei na Praça da República para esperar alguém que se atrasara. Levantei os olhos até a Marianne, no alto do Monumento à República, e me ocorreu que a demora dela era muito maior que a minha.

Desde 1897, permanecia ali, acima dos bancos e das alamedas, sem poder seguir ninguém. Tinha por companhia o céu de Belém e, lá embaixo, uma cidade que nunca terminava de chegar. Imaginei sua primeira noite na praça.

O Teatro da Paz já estava diante dela, iluminado para receber o público. Carruagens paravam, vestidos roçavam o chão, homens ajeitavam a roupa antes de entrar.

Marianne via a fachada e o movimento das portas; dos espetáculos, alcançava talvez uma nota de música quando alguém saía antes do fim. Devia ser uma forma estranha de assistir ao teatro: conhecer os aplausos sem conhecer a peça.

Com o tempo, aprendeu outros sons. A avenida ao lado, chamada Rua 15 de Agosto, tornou-se Avenida Presidente Vargas. A mudança veio escrita nas placas, mas se fez ouvir nas rodas, nos motores, nas buzinas.

Marianne viu a rua receber veículos cada vez mais numerosos. Talvez ainda guardasse o nome antigo na memória quando um motorista, perdido, perguntava por ele a um passante.

Também viu o Grande Hotel em seus dias de prestígio. À entrada, malas eram carregadas para dentro, hóspedes ilustres chegavam cercados de cumprimentos e curiosos tentavam reconhecê-los.

Dali de cima, Marianne não poderia saber qual visitante era famoso. Conhecia, porém, o porteiro que abria a porta para todos e o empregado que voltava para recolher a bagagem esquecida.

Quando o movimento do hotel mudou, foram esses rostos cotidianos que ela deve ter procurado primeiro. A praça ganhou outras maneiras de receber gente.

Aos domingos, a feirinha espalhava artesanato aos seus pés. Mãos levantavam cuias, tecidos, colares e pequenas peças para mostrá-los melhor. Crianças pediam um brinquedo; adultos perguntavam o preço e prometiam voltar. Alguns voltavam.

Marianne, que não podia descer para escolher nada, parecia cercada de objetos feitos para serem levados embora. No Carnaval, passavam fantasias, risos e marchas que se perdiam avenida abaixo.

Em outros dias, o Boi Pavulagem nos meses de Junho e Outubro reunia brincantes, música e bandeiras. A praça, tão habituada aos passos de quem ia apenas atravessá-la, via aquelas pessoas chegarem justamente para ficar.

Marianne as acompanhava até o limite de sua vista e esperava pelo próximo cortejo. Setembro trazia solenidades cívico-militares, uniformes alinhados e famílias procurando um lugar de onde as crianças pudessem ver o desfile.

Outubro mudava o compasso da praça. Na noite de sábado, durante a Trasladação, ela via a multidão abrir passagem à imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Na manhã do segundo domingo, o Círio percorria a avenida em sentido contrário.

Talvez Marianne reconhecesse, entre tantos rostos, quem havia passado ali poucas horas antes; talvez fosse impossível distinguir alguém naquela corrente de fé. Nem todas as reuniões tinham música ou oração.

Vieram manifestações de partidos, discursos disputados aos gritos, cartazes erguidos contra outros cartazes. Algumas terminaram em conflito entre manifestantes e forças de segurança. Depois, quando a praça esvaziava, ficavam papéis no chão e bancos fora do lugar.

Marianne permanecia no alto, diante de pessoas

que invocavam a liberdade por razões diferentes e nem sempre conseguiam se escutar. Ao longo dos anos, viu famílias repetirem passeios que seus avós também haviam feito. Um pai apontava o teatro; a filha queria saber quem era a mulher sobre o monumento. Antes que ele respondesse, ela corria atrás de um pombo.

Mais tarde, quando as barracas fechavam e os últimos ônibus passavam, alguém sem casa estendia um papelão perto da base. Deitada ali, aquela pessoa talvez nem olhasse para cima. Eu olhei. A figura da República parecia velar-lhe o sono com uma atenção materna que a pedra, sozinha, não podia oferecer.

Meu conhecido enfim apareceu e pediu desculpas pelo atraso. Olhei mais uma vez para

Marianne. Eu havia ido à praça pensando na Belém que já não existe: o Grande Hotel em seu

auge, a antiga 15 de Agosto, os trajes diante do Teatro da Paz.

Ela me fizera reparar também na Belém de agora, que armava a feira, atravessava a avenida, celebrava, discutia e procurava onde dormir. Seguimos nosso caminho. Marianne ficou.

Amanhã, alguém há de se atrasar naquela praça e talvez levante os olhos como eu. Se perguntar o que ela viu durante todos esses anos,

bastará esperar um pouco: Belém logo passará diante dela outra vez!

Américo Sena
Enviado por Américo Sena em 01/10/2026
Alterado em 02/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários