QUE SUSTO!
A chuva começou enquanto o professor enchia o quadro de números.
Na sala, o ventilador disputava com a água no telhado o direito de ser ouvido.

Lucas copiava uma fórmula, mas pensava na apresentação de sexta-feira, na prova de segunda e no relatório que ainda precisava entregar no trabalho.
Havia dias em que sua cabeça parecia uma avenida de Belém no horário de pico: tudo queria passar ao mesmo tempo.
Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Almoçava depressa, aproveitava intervalos para revisar anotações e chegava à universidade com o cansaço escondido dentro da mochila.
Naquela semana, o grupo do seminário ainda discutia quem faria os slides. Só de imaginar a turma inteira olhando para ele, esquecia metade do que sabia.
Diante do professor, até uma frase ensaiada parecia adquirir uma dificuldade nova.
O carro branco tinha melhorado muito aquela rotina. Era seu primeiro veículo, um usado de segunda linha, comprado pelos pais com uma dificuldade que nenhum anúncio de revenda seria capaz de explicar.
Tinham juntado economias, adiado compras e apertado o orçamento para premiar o filho que seguia firme nos estudos.
Não puderam oferecer um carro novo. Ofereceram o que coube nas contas e, dentro dele, um orgulho que não cabia.
Quando o pai lhe entregou a chave, disfarçou a emoção comentando o estado dos pneus. A mãe passou a mão no banco e recomendou cuidado na chuva.
Lucas ouviu os dois como quem recebe muito mais que instruções. Durante meses, sonhara com a possibilidade de sair do trabalho e chegar à aula sem depender de duas conduções, levando os livros secos e, quem sabe, alguns minutos de descanso.
O veículo tinha seus caprichos: um ruído no painel, uma porta que exigia jeito e uma pintura já cansada. Lucas conhecia cada um deles. Tratava o carro com a delicadeza de quem sabia quantas renúncias tinham sido necessárias para colocá-lo ali. Combustível, manutenção e estacionamento passaram a integrar suas preocupações.
A liberdade tinha vindo com uma pequena planilha.
Um trovão fez tremer as janelas. Foi então que ele se lembrou de onde estacionara: bem debaixo de uma mangueira. Na chegada, procurara abrigo para o carro e um caminho mais curto até a sala.

Agora, ouvindo o vento, a escolha lhe pareceu menos inteligente. Olhou para a janela. A chuva desenhava riscos oblíquos no vidro.
Tentou voltar à matéria. O professor perguntava alguma coisa sobre uma derivada quando uma voz atravessou o corredor:
— Caiu uma árvore em cima de um carro branco!
Lucas não perguntou a placa. Não perguntou o modelo. Naquele instante, todos os carros brancos do mundo se resumiram ao dele.
Levantou-se tão depressa que arrastou a cadeira, deixou o caderno aberto e saiu correndo.

O professor ficou com a pergunta suspensa. Atrás dele, alguns colegas seguiram por curiosidade; outros já sabiam que aquele carro representava um esforço grande demais para caber numa brincadeira.
Enquanto atravessava o corredor, Lucas fazia contas sem precisar de quadro. Teto amassado, vidro quebrado, oficina, dinheiro que não tinha. Pensou no pai contando as economias sobre a mesa. Pensou na mãe perguntando se ele estava dirigindo com cuidado. Como explicaria que o presente de tantos sacrifícios acabara de ser esmagado justamente enquanto ele estudava?
Chegou ao estacionamento encharcado, com os óculos molhados e o coração adiantado vários metros em relação ao corpo. O carro estava lá. Sobre ele, folhas, mangas e um galho. Um galho grande, é verdade, mas um galho. A mangueira permanecia de pé. O grito do corredor tinha derrubado uma árvore inteira; a chuva, apenas parte dela.

Havia um amassado discreto e alguns riscos. Os vidros estavam inteiros. Lucas deu a volta no carro, conferiu as portas e respirou como se só agora tivesse encontrado ar suficiente. Dos males, o menor. O prejuízo existia, mas já não tinha o tamanho que assumira durante a corrida.
— Que susto! — disse, apoiando a mão no peito.
Um colega apontou as mangas espalhadas pelo capô:
— Pelo menos deixou a sobremesa.
Lucas riu. Primeiro, um riso curto, ainda desconfiado. Depois, uma gargalhada que levou embora um pouco do peso daquela semana. Com ajuda dos amigos, retirou o galho e recolheu os frutos aproveitáveis numa sacola. Não pagariam o conserto, mas serviriam de consolo — e dariam uma boa história para contar em casa.
Antes de voltar à sala, mandou uma mensagem para a mãe: “Estou bem. O carro também. Depois explico.” Conferiu a frase e acrescentou: “Vou levar mangas.”
A prova continuava marcada. O seminário ainda precisava de ensaio, o trabalho o esperava no dia seguinte e o pequeno amassado entraria no orçamento. Mesmo assim, Lucas voltou mais leve. Sentou-se diante do caderno aberto, enxugou os óculos e pediu ao colega que lhe mostrasse o que perdera.
Na saída, acomodou a sacola no banco do passageiro com o mesmo cuidado que dedicava aos livros. Girou a chave, ouviu o motor conhecido e sorriu. Naquela noite, levaria para casa o carro comprado pelos pais, um susto já passado e mangas suficientes para repartir à mesa.