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CRÔNICAS LÍRICO-REFLEXIVAS
Lembranças e Esperanças
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UMA CENA INUSITADA

O sinal abriu, mas o carro não saiu. O motorista virou a chave mais uma vez, como quem insiste numa conversa que o outro já abandonou. O motor respondeu com um engasgo. Depois, silêncio. Atrás dele, uma buzina fez a pergunta que todo mundo sabia responder: por que você ainda está aí?

Eu presenciei aquela cena ao lado de minha querida esposa. Ela também viu, e isso haveria de ser útil quando chegasse a hora de contar. O cruzamento poderia pertencer a qualquer cidade brasileira: havia gente passando, veículos esperando e, no meio daquele movimento, um carro que precisava sair do caminho.

O homem desceu. Olhou para o capô, olhou para a fila e passou a mão na cabeça. Pela expressão, o defeito mecânico acabava de abrir também um rombo nas contas do mês. Ainda assim, primeiro precisava tirar o carro dali. Encostou as mãos na lataria, pelo lado de fora, e começou a empurrar, mantendo a porta aberta para alcançar o volante e corrigir a direção.

Foi quando a cena ganhou dois personagens que nenhum diretor de cinema teria escalado daquele jeito.

Um motociclista se aproximou devagar, ergueu a viseira e perguntou:

— Vamos levar até ali?

Não houve reunião para definir o significado de “ali”. Os dois olharam para o mesmo espaço junto ao meio-fio e se entenderam. O motociclista permaneceu sobre a moto e estendeu uma perna. Com um dos pés apoiado na traseira do automóvel, começou a ajudá-lo a avançar. Parecia querer convencer o carro de que, se o motor não colaborava, uma bota resolveria a questão.

Do outro lado apareceu um ciclista. Também não abandonou seu veículo. Desceu do selim, segurou o guidão com uma mão e apoiou a outra no carro. Caminhava empurrando os dois, atento à roda da bicicleta, que insistia em participar da conversa mais perto do que devia.

O conjunto avançou aos poucos: o motorista com as mãos na carroceria, o motociclista ajudando com um pé e o ciclista dividido entre a bicicleta e o automóvel. Três homens, três modalidades de transporte e uma coordenação improvisada que, vista da calçada, parecia desafiar tanto a mecânica quanto a elegância.

Quatro rodas recebiam auxílio de duas rodas de um lado e de outras duas do outro. O carro, feito para andar a motor, dependia naquele instante da força humana. A motocicleta emprestava movimento, mas era pelo pé de seu condutor que a ajuda chegava. A bicicleta, acostumada às pernas, acompanhava o esforço de um braço. Nunca tinha visto tanta discussão sobre propulsão resolvida sem uma única palavra técnica.

Um rapaz perto de mim soltou uma risada. Eu também sorri. Havia alguma coisa de desenho animado naquele arranjo. Mas bastava olhar para o rosto aflito do motorista para entender que o episódio, embora engraçado para quem assistia, era bem sério para quem pagaria a oficina.

As buzinas diminuíram. Um condutor esperou que os três passassem. Outro deixou espaço para a manobra. A fila voltou a andar, e o cruzamento recuperou seu barulho habitual. Quem vinha mais atrás talvez nem soubesse por que tivera de parar. Para essas pessoas, o trânsito simplesmente melhorara.

Talvez o motociclista quisesse ajudar. Talvez também quisesse liberar o caminho. O ciclista podia estar com pressa e ter percebido que alguns metros de esforço economizariam minutos de espera. Não havia como entrar na cabeça de nenhum deles. E tampouco era necessário exigir intenções perfeitas: haviam visto um homem em dificuldade e feito alguma coisa a respeito.

Na cidade, acostumamo-nos a interpretar o desconhecido como concorrente por uma vaga, por um lugar na fila, por um pedaço de rua. Às vezes, uma pane interrompe essa disputa. A mão deixa o guidão por um momento, o pé encontra outra função, e alguém passa a existir para nós além do obstáculo que representa.

Quando o carro chegou ao ponto seguro, o motorista endireitou o corpo e respirou fundo. Agradeceu várias vezes. O motociclista recolheu a perna; o ciclista ajeitou a bicicleta. Trocaram algumas palavras que o movimento da rua não me deixou ouvir. Depois seguiram seus caminhos, sem que eu soubesse seus nomes.

Continuamos em direção ao nosso destino rindo e discutindo as várias camadas daquela cena. Minha querida esposa e eu voltávamos aos detalhes: o pé do motociclista, a mão do ciclista, o esforço do motorista. Entre uma risada e outra, conversávamos sobre a solidariedade, a pressa de liberar o trânsito e aquele encontro entre quatro rodas e duas rodas, motores e músculos. Quanto mais olhávamos para a mesma lembrança, mais coisas encontrávamos nela.

Enquanto seguíamos, fiquei imaginando a chegada de cada participante em casa.

O motorista talvez dissesse, ainda preocupado com o conserto:

— Hoje meu carro parou no cruzamento. Um rapaz de moto e outro de bicicleta me ajudaram.

Até aí, todos acreditariam. A dificuldade começaria nos detalhes.

— O da moto empurrou com o pé.

— Ele desceu da moto?

— Não.

— E o da bicicleta?

— Empurrou sem largar a bicicleta.

Alguém largaria o garfo para prestar atenção. Outro pediria que ele contasse de novo, mais devagar. A oficina era compreensível. Aquela coreografia precisava de demonstração.

Na casa do motociclista, a história poderia render uma pergunta prática:

— Você ajudou um carro com a bota?

Ele mostraria a sola como se exibisse um documento. O ciclista talvez precisasse afastar duas cadeiras, pegar a bicicleta e reproduzir o movimento na sala, sob protestos de quem acabara de limpar o chão.

Imaginei também como seria contar aquilo aos amigos e familiares. Minha versão seria a de quem tinha visto o episódio inteiro: um carro retirado do cruzamento por seu motorista, um motociclista que usava um pé e um ciclista que não largava a bicicleta.

— Você inventou isso.

Eu precisaria explicar os braços, as rodas, o guidão. Quanto mais fiel fosse à cena, mais improvável ela pareceria. E, se alguém continuasse desconfiado, minha esposa poderia confirmar, talvez sorrindo da minha dificuldade para descrever uma coisa tão simples de ver e tão complicada de contar.

Quando a história parece exagerada demais, tenho a quem recorrer: minha querida esposa estava ao meu lado e presenciou tudo. A cena é verdadeira. Guardei dela aquela pequena interrupção no costume de esperar pouco dos outros. Agora, quando ouço dizer que ninguém mais ajuda ninguém, lembro dos três avançando desajeitados pelo asfalto.

E volto a acreditar. Naquele dia, seguimos para o nosso destino levando o riso e a conversa. Os três tinham feito o carro sair do lugar; sem saber, também tinham movimentado alguma coisa dentro de nós. E, se alguém duvidar da história, apontarei para minha companheira e direi: “Ela estava comigo. Nós vimos — e continuamos rindo pelo caminho.”

Américo Sena
Enviado por Américo Sena em 03/10/2026
Alterado em 03/10/2026
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