A ESTRELINHA QUE O NATAL DEIXOU NO CÉU

Nina - dos olhos de jabuticaba e presença maior que o próprio tamanho.
Ela chegou pequena, muito pequena, como costumam chegar aqueles que, sem sabermos, ocuparão espaços enormes em nossa vida.
Seu nome era Nina.
Era uma Yorkshire minúscula, quase loira, toda peludinha e desgrenhada. Parecia um ursinho de pelúcia. Ou, olhando melhor, uma versão pequenininha, delicada e irresistível do Chewbacca. A semelhança logo virou brincadeira familiar. Por trás daquela aparência engraçada, porém, já estavam os enormes olhos escuros e uma personalidade que conheceríamos muito bem: pequena no tamanho, gigantesca na presença.
Nina chegou com um lugar aparentemente definido na hierarquia da família: tinha status de neta. Era assim que deveria ser. A cachorrinha, a netinha, aquela criatura que seria cuidada, mimada e amada. Esse era o plano. Nina tinha outros.
Pouco a pouco, sem pedir licença a ninguém, foi avançando na hierarquia familiar. Primeiro ganhou o colo. Depois, os melhores lugares da casa. Conquistou o sofá, apropriou-se do travesseiro, passou a fiscalizar a porta, escolheu seu humano preferido e, quando percebemos, a promoção já havia acontecido. A neta tinha virado “a filha mais querida”. Assim mesmo, entre aspas, porque a expressão virou uma daquelas provocações familiares que todos compreendem e que, naturalmente, despertava o ciúme dos demais.
Afinal, como competir com Nina? Os outros podiam argumentar. Nina olhava. Podiam reclamar. Nina continuava olhando. Podiam reivindicar igualdade. Ela apresentava aqueles enormes olhos de jabuticaba, acomodava-se tranquilamente no travesseiro e encerrava qualquer discussão. Era uma concorrência desleal.
E não se enganem com aquela aparência de pequeno Chewbacca quase loiro. Nina tinha uma inesquecível cara de enfezada. Bastava alguém se aproximar demais de seu humano mais querido para que o ursinho desaparecesse e surgisse um pequeno leão. Ela se armava inteira. Ficava atenta, desconfiada, pronta para defender aquele que havia escolhido como seu.
Era ciumenta, valente e possessiva na medida particular do seu amor. Dizer que Nina escolheu seu humano preferido talvez seja pouco. Ela se apropriou dele. E passou a segui-lo como uma sombra. Se ele ia para o quarto, Nina ia. Se voltava para a sala, lá vinha Nina. Se entrava no banheiro, ela acompanhava. Onde estivesse seu humano preferido, ali deveria estar Nina. A sombra não precisa ser chamada para acompanhar alguém. Ela simplesmente vai.
Quando ele saía de casa, começava outra rotina: a espera. E ninguém precisava avisar Nina de que ele estava voltando. Ela sabia. Havia um som que seus ouvidos reconheciam antes dos nossos. Lá fora, o carro entrava no estacionamento. Nina percebia. O barulho do carro estacionando era seu alerta. De repente, ficava agitada e os olhos se voltavam para a porta. Nós ainda não tínhamos ouvido a chave, mas Nina já sabia: seu humano preferido estava chegando. Talvez reconhecesse o motor. Talvez escutasse sons que nossos ouvidos não alcançavam. Ou talvez fosse simplesmente amor. Prefiro acreditar nessa última explicação.
Mas a mesma porta tinha outro significado. Se, por algum descuido, ficasse aberta, Nina disparava. Destino certo: o estacionamento. Na cabeça dela, porta aberta era a senha para passear.
Houve um tempo em que percebemos que Nina havia convivido tanto conosco que quase se esquecera de uma coisa elementar: Nina era cachorro. Estava humanizada. Quando ficava sozinha, sofria. Foi uma vizinha quem contou que, durante nossas ausências, Nina chorava diariamente. A veterinária foi firme: Nina precisava de companhia.
Foi assim que chegou Nicki. Pequena, pretinha, inquieta e dona de dois olhos atentos, lembrava o Fúria da Noite, aquele dragão negro de aparência ao mesmo tempo travessa e encantadora. Se Nina, quando filhote, fora nosso pequeno Chewbacca quase loiro, agora aparecia em casa uma espécie de pequeno dragão preto, cheio de energia e completamente disposto a virar de cabeça para baixo a rotina da irmã mais velha.
Nina a recebeu bem. Nicki corria, provocava, brincava, voltava e mexia novamente com Nina. A pequena “Fúria da Noite” não chegara apenas para fazer companhia. Chegara para despertar alguma coisa em Nina. Pouco a pouco, nossa “filha mais querida”, tão acostumada aos hábitos humanos, começou a reencontrar sua própria natureza.
Graças à pequena Fúria da Noite, Nina voltou a ser cachorro. A natureza é sábia. Nicki não tomou o lugar dos humanos que Nina amava. Fez algo que nenhum de nós conseguiria fazer: devolveu Nina a Nina. A solidão ganhou companhia. O choro ganhou brincadeira. O silêncio ganhou patas correndo pela casa. E a casa ganhou confusão. Hoje até daquela confusão sentimos saudade, porque só depois compreendemos que felicidade também fazia barulho.
Havia ainda Ghery, o coelho vizinho. Nina não era propriamente sua companheira. Eles eram vizinhos e, quando se encontravam, alguma coisa despertava imediatamente naquela pequena Yorkshire. Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse o antigo instinto de perseguição que os cães carregam através dos séculos. Ou talvez fosse simplesmente a oportunidade irresistível de brincar.
Ghery corria. Nina ia atrás. Ele acelerava, ela acelerava também. E assim começava aquela corrida divertida. O coelho adiante e Nina em seu encalço, obstinada, curiosa e feliz. Corriam até o cansaço encerrar a brincadeira. Nunca saberemos exatamente o que se passava na cabeça de Nina quando avistava Ghery. O instinto era secular; a intenção parecia brincadeira.
Nina sabia também conseguir aquilo que queria. Para isso possuía uma arma contra a qual havia pouca resistência possível: aqueles enormes olhos de jabuticaba. Quando estava cansada e decidia que chegara a hora de dormir, não precisava latir. Ficava olhando. Apenas olhando. Até vencer pelo cansaço. E vencia.
Então chegava a hora do travesseiro. Ah, o meu travesseiro... Durante quinze anos, oficialmente tive um travesseiro. Na prática, não. Nina tomou posse. Sem autorização, sem contrato e sem qualquer possibilidade de reintegração. Principalmente na hora daquele soninho da tarde. O travesseiro era dela. Eu apenas havia comprado.
Durante quinze anos perdi meu travesseiro. Hoje daria tudo para perdê-lo novamente. Talvez seja essa uma das faces mais dolorosas da saudade. Aquilo que fazia parte da rotina e parecia tão simples transforma-se, depois da ausência, naquilo que mais desejaríamos viver outra vez.
Os anos passaram. Aquele pequeno Chewbacca quase loiro foi mudando diante dos nossos olhos. Os pelos ganharam tons prateados e cinzentos. Os passos ficaram menores. O corpo começou a pedir mais descanso. O ursinho da juventude transformou-se em nossa velhinha cinza. Mas algumas coisas jamais envelheceram: os olhos de jabuticaba, a cara de enfezada, o pequeno leão, a vontade de ficar perto, a personalidade e, principalmente, o amor.
Durante quinze anos, Nina acompanhou pedaços inteiros da nossa história. Pensávamos que cuidávamos dela. Hoje percebo que, de muitas maneiras, era Nina quem cuidava de nós.
Então veio o Natal. E chegou o dia seguinte. 26 de dezembro. Nina partiu. Nossa velhinha cinza virou estrelinha. Enquanto as luzes do Natal ainda estavam acesas, sentimos que uma luz muito nossa havia se apagado aqui embaixo.
Ficou um silêncio diferente. O carro continuou chegando ao estacionamento. Mas ninguém mais percebeu primeiro. Ninguém correu para a porta. Podíamos caminhar pela casa, mas a sombra não vinha atrás. O travesseiro voltou a ser meu. Mas eu nunca quis realmente meu travesseiro de volta. Eu queria Nina.
Foi então que compreendi como uma cachorrinha tão pequena conseguira preencher uma casa inteira. Nina era família. Chegou neta e virou “a filha mais querida”, para ciúme de todos. Era a pequena fugitiva correndo para o estacionamento, a irmã mais velha às voltas com as travessuras da pequena Fúria da Noite, a vizinha curiosa de Ghery, a velhinha de olhos de jabuticaba, a sombra percorrendo a casa e a sentinela junto à porta.
Era uma pequena Yorkshire convencida de que tinha tamanho suficiente para enfrentar o mundo inteiro se fosse necessário proteger quem amava. E talvez tivesse mesmo. Porque amor nunca foi uma questão de tamanho.
Talvez Deus, em Sua infinita sabedoria, saiba que algumas lições de amor não precisam de palavras. Por isso, de vez em quando, Ele nos envia anjos de quatro patas 🐾. Eles chegam pequenos, entram silenciosamente em nossa rotina e, quando percebemos, já tomaram conta da casa, do travesseiro e do coração. Ficam conosco pelo tempo que lhes é permitido, ensinando fidelidade, companhia, paciência e amor sem condições. Depois partem, deixando pegadas que o tempo não consegue apagar.
Hoje, quando a memória abre suas portas, vejo muitas Ninas em uma só. Vejo o pequeno Chewbacca quase loiro que chegou. Vejo a filha mais querida. Vejo a irmã de Nicki. Vejo a vizinha curiosa de Ghery. Vejo nossa velhinha cinza. Vejo a cara de enfezada, os olhos de jabuticaba, o pequeno leão, a sombra inseparável, a dona absoluta do meu travesseiro e aquela pequena figura esperando atrás da porta.
Então sorrio. E logo depois o sorriso encontra a saudade. Porque existem lembranças que fazem isso conosco: primeiro arrancam uma risada e, no instante seguinte, apertam o coração.
Talvez a saudade seja exatamente isso: o amor procurando onde pousar depois que já não consegue alcançar quem ama.
Naquele 26 de dezembro, enquanto as últimas luzes do Natal ainda brilhavam, gosto de imaginar que uma nova luz apareceu no céu. Pequenina. Valente. Teimosa. Talvez ainda com aquela cara de enfezada. E certamente com seus enormes olhos de jabuticaba.
Gosto também de imaginar que, quando Nina chegou lá em cima, encontrou novamente Ghery, seu antigo vizinho. Talvez tenham se reconhecido. Talvez Ghery tenha olhado para ela e, como nos velhos tempos, começado a correr. Nina, naturalmente, foi atrás.
Curiosidade? Instinto? Brincadeira? Pouco importa.
É assim que prefiro imaginá-los agora: Ghery correndo pelas nuvens e Nina em seu encalço, brincando até cansar — se é que no céu alguém se cansa.

Nina e Ghery - a brincadeira continua, agora entre as nuvens.
Por aqui ficou Nicki, a pequena Fúria da Noite que um dia chegou para fazer confusão e que, sem saber, ajudou Nina a reencontrar sua própria natureza. E ficaram também as lembranças. Muitas.
Quando a saudade apertar, bastará olhar para o céu. Talvez aquela estrelinha seja Nina. Nossa menina. Nossa Yorkshire. O pequeno Chewbacca quase loiro. Nossa velhinha cinza. Nosso pequeno leão. A irmã de Nicki. A antiga vizinha de Ghery. Minha sombra. A eterna dona do meu travesseiro.
Nina foi um desses anjos.
Ficou quinze anos.
E ainda assim foi pouco.
Ananindeua - PA, 07 de outubro de 2026.