QUANDO A TORNEIRA SE CALA
Na parede verde, pequenas rachaduras guardam a passagem do tempo. A luz pousa sobre os tijolos avermelhados e alcança a torneira, que curva seu pescoço de metal sobre a pia. Nenhuma gota. Apenas uma quietude que parece esperar pelo movimento de uma mão.
Olhando assim, tudo parece simples: girar o registro, aparar a água, lavar o rosto e seguir a vida. Mas, entre o rio e aquela pequena boca de metal, existe um mundo de trabalho que raramente enxergamos.
Uma torneira aberta revela apenas o último trecho de uma longa viagem.
Antes de chegar à nossa casa, a água pertenceu a uma paisagem. Correu por um rio, descansou num lago ou permaneceu sob a terra. Fez parte da vida de plantas e animais, alimentou raízes, atravessou margens.
Por isso, retirá-la da natureza exige cuidado: a necessidade de uma cidade não pode fazer esquecer as necessidades do próprio manancial.
As árvores nas margens também participam dessa história. Suas raízes ajudam a proteger o solo, e sua presença contribui para preservar as águas.
Quando desaparecem, a terra fica mais exposta, os sedimentos encontram caminho para os rios e a paisagem vai perdendo sua capacidade de nos sustentar.
Talvez a primeira lição daquela torneira seja esta: o cuidado com a água começa muito antes de chegarmos à pia.
Depois da captação, vem o trabalho de torná-la própria para o consumo. Nas estações de tratamento, processos sucessivos ajudam a retirar impurezas e controlar os microrganismos capazes de causar doenças.
A água passa por etapas que podem incluir coagulação, floculação, decantação, filtragem e desinfecção. O cloro participa da desinfecção; a fluoretação, quando realizada, tem outra finalidade, relacionada à prevenção da cárie.
São palavras técnicas, pouco afeitas à poesia. Entretanto, seus resultados entram diariamente em nossos gestos mais íntimos: preparar o alimento de uma criança, beber um copo de água, lavar uma fruta.
Há uma delicadeza humana escondida nessa engenharia. Cada cuidado com a qualidade da água alcança pessoas que os trabalhadores do saneamento provavelmente nunca conhecerão.
A viagem continua por adutoras, reservatórios e redes de distribuição. Bombas ajudam a vencer desníveis; equipes acompanham o funcionamento dos sistemas e consertam o que se rompe. Sob ruas movimentadas, existe uma cidade de tubulações sustentando a cidade que vemos.
Pensamos pouco nisso. A água chega, e sua chegada se torna costume. Só quando falta percebemos quantas tarefas dependiam daquele fluxo silencioso.
A louça espera. A roupa permanece no cesto. O café depende de uma reserva esquecida na geladeira. Uma ausência transparente ocupa a casa inteira.
Para quem cresceu em Belém, cercado por rios e acostumado às chuvas que escurecem a tarde, essa falta parece ainda mais estranha. Vemos água na paisagem e imaginamos que ela estará sempre disponível.
Mas o rio diante dos olhos não se transforma sozinho em água segura dentro de um copo. A abundância da natureza precisa encontrar proteção, tratamento e infraestrutura.
E precisa chegar a todos.
Uma rede de abastecimento transforma a rotina de uma comunidade: reduz a necessidade de carregar baldes, facilita a higiene, ajuda a proteger a saúde e devolve tempo às famílias. Quando esse serviço falta ou chega de maneira irregular, o peso da espera se distribui desigualmente.
Para alguns, a interrupção é um contratempo; para outros, é parte cansativa de todos os dias.
Por isso, a água também nos convida a pensar sobre justiça.
Ao longo do caminho, vazamentos podem desperdiçar água já captada e tratada. Há também perdas relacionadas a falhas de medição e ao consumo não registrado, que exigem respostas diferentes. Cuidar do abastecimento pede manutenção, gestão e atenção contínuas.
Dentro de casa, nossa responsabilidade assume formas pequenas e concretas. Fechar a torneira enquanto escovamos os dentes. Consertar o registro que pinga. Evitar transformar a mangueira numa vassoura interminável sobre a calçada.
A água desperdiçada leva consigo energia, insumos e horas de trabalho. Deixá-la correr sem necessidade é ignorar toda a viagem que a trouxe até nós.
Mas essa viagem não termina no ralo.
Depois do uso, a água pode carregar sabão, gordura, resíduos e dejetos. Torna-se parte do esgoto, que precisa ser coletado e tratado antes de retornar ao ambiente. Quando esse cuidado não existe, os rios recebem a carga da nossa rotina e adoecem sob ela.
A correnteza pode levar a sujeira para longe dos nossos olhos, mas não a faz desaparecer.
O rio que recebe os resíduos é parte da mesma natureza da qual esperamos receber água. Há, nesse retorno, uma pergunta silenciosa sobre como tratamos aquilo que nos sustenta.
Lembro das chuvas da infância. O vento levantava as folhas, as primeiras gotas marcavam a calçada e logo o telhado começava sua conversa alta. Pequenos barcos de papel seguiam pela enxurrada, carregando destinos inventados.
Hoje, diante da torneira, penso que nossos destinos continuam ligados à água. Preservá-la exige decisões coletivas e hábitos cotidianos. Exige reconhecer tanto o valor do rio quanto o trabalho de quem faz a água chegar à nossa porta.
Eu estava disposto a prolongar essa reflexão. Talvez escrever mais algumas linhas sobre a natureza, a responsabilidade e a gratidão.
Mas a vida resolveu aplicar uma prova prática.
Depois de um dia quente, entrei no banho e me ensaboei com entusiasmo. Espuma na cabeça, nos braços, no peito. Foi justamente naquele momento de completa confiança na civilização que o chuveiro suspirou, soltou uma última gota e se calou.
Girei o registro outra vez. Nada.
Ali estavam, resumidos no meu desespero, o manancial, as bombas, o tratamento, os reservatórios e toda a engenharia invisível. Eu compreendia perfeitamente a importância de cada etapa. Só não conseguia abrir os olhos, porque o sabão ardia.
— Tem água em algum balde? — gritei.
— Só um pouquinho! — responderam.
Nunca um pouquinho me pareceu tão próximo de uma bênção.
Naquele instante, deixei para depois a conclusão filosófica. Precisava resolver uma questão mais urgente: sair do banheiro sem passar o restante da noite todo ensaboado.
Continuo acreditando que a água é vida, memória e poesia.