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CRÔNICAS LÍRICO-REFLEXIVAS
Lembranças e Esperanças
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OUTUBRO TEM CHEIRO DE REENCONTRO

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Em Belém, outubro chega primeiro pelo coração. Depois aparece nas vitrines, nas janelas enfeitadas, nas conversas de mercado e no cheiro da maniçoba que começa a tomar conta das casas. Alguém pergunta a que horas chega o parente que mora longe. Outro procura a camisa que usará na procissão. Na cozinha, uma voz avisa que é preciso aumentar a comida: no domingo do Círio, sempre cabe mais alguém.

A cidade prepara a passagem de Nossa Senhora de Nazaré. E, enquanto prepara as ruas, cada pessoa parece arrumar também alguma coisa por dentro.

Para os católicos, o Círio nasce da devoção a Maria, mãe de Jesus, a quem pedem intercessão e oferecem sua gratidão. A imagem na berlinda concentra olhares, lágrimas e orações; mas cada rosto na multidão guarda uma história que ninguém consegue enxergar inteira. Há quem agradeça pela saúde recuperada, quem peça trabalho, quem procure forças para suportar uma ausência. Há também quem não saiba formular uma oração e apenas murmure:

— Minha Nossa Senhora...

O restante fica por conta do silêncio.

Quem observa de longe vê uma procissão. Quem caminha leva consigo a vida.

Os pagadores de promessas tornam essa vida visível. Um pequeno objeto em forma de casa pode guardar anos de aluguel e o sonho de um teto próprio. Uma representação de parte do corpo pode lembrar a enfermidade vencida. Um barco pode trazer a memória de um perigo nas águas. Esses ex-votos testemunham uma relação íntima com o sagrado, presente na tradição do Círio.

Antes de chegar às ruas, muitos votos religiosos nasceram ao lado de uma cama de hospital, numa madrugada de aflição ou diante de uma notícia que fez faltar o chão. A promessa foi pronunciada quando quase nada parecia estar nas mãos de quem a fazia. Cumpri-la é voltar àquele instante e dizer: “Eu não esqueci.”

Há quem caminhe descalço, quem carregue um símbolo da graça recebida, quem acompanhe a procissão em oração. A gratidão também pode alimentar alguém, repartir água, acompanhar um idoso ou amparar quem desfalece no calor. Naquela multidão, o cuidado com o outro encontra inúmeras maneiras de rezar.

E há a corda.

Vista sem a presença humana, ela é um objeto. Cercada de mãos, torna-se uma experiência. É um dos grandes símbolos do Círio e da Trasladação; ao seu redor, o esforço individual entra no movimento coletivo.

Cada pessoa segura um trecho, mas nenhuma carrega sozinha o sentido daquele caminho. O suor aproxima desconhecidos. O cansaço revela limites. Uma mão ajuda a outra. Para o devoto, tocar a corda pode ser cumprir uma promessa, manifestar humildade, sentir-se perto de Nossa Senhora. Para quem contempla a cena, ela sugere algo que a vida cotidiana frequentemente nos faz esquecer: precisamos uns dos outros para seguir.

Talvez por isso o Círio continue depois que a berlinda passa.

Continua na porta aberta, no abraço demorado, na cadeira puxada para quem chegou sem avisar. É o “Natal dos paraenses”: tempo de reunir a família, procurar os amigos e sentir mais intensamente a falta de quem já partiu. O almoço do Círio, com pato no tucupi e maniçoba, faz parte dessa celebração doméstica que aproxima a festa religiosa do reencontro familiar.

O tucupi perfuma a casa. O jambu desperta a boca. A panela guarda receitas, lembranças e discussões sobre quem fazia a melhor comida. Entre uma porção e outra, alguém recorda a mãe, a avó, uma infância inteira. A gastronomia serve também aquilo que não aparece no prato.

Há mesas fartas e mesas modestas. Em ambas, uma porção repartida pode expressar a mesma vontade: que ninguém fique de fora.

Entre os sabores do almoço e as lembranças da procissão, há também os brinquedos artesanais de miriti, vindos de Abaetetuba. Barquinhos, pássaros, peixes e cobrinhas coloridas trazem para a festa a delicadeza do trabalho dos artesãos. São leves nas mãos, mas carregam o peso amoroso da memória. Basta olhar um deles para reencontrar o menino que fomos, segurando a mão de alguém querido e escolhendo, diante da banca, um pequeno encanto para levar para casa.

Com o passar dos anos, aquele brinquedo pode desaparecer, mas a lembrança permanece: a voz de quem o comprou, a alegria da escolha, o cuidado para não quebrá-lo no caminho. No Círio, o miriti liga a infância de ontem à de hoje. Enquanto uma criança descobre o movimento de uma cobrinha ou faz navegar seu barquinho imaginário, um adulto sorri, reconhecendo ali um pedaço da própria história.

Também nesses objetos o Pará guarda seu afeto — feito à mão, pintado de muitas cores e transmitido de uma geração a outra.

Quem chega como turista encontra uma cidade tomada por sons, sabores e emoção. Há movimento no comércio e trabalho para quem hospeda, transporta, cozinha e vende. O visitante fotografa a berlinda, experimenta a comida, leva uma lembrança. Mas talvez compreenda melhor o Pará quando recebe um copo d’água de um desconhecido ou escuta alguém contar por que voltou naquele ano. A dimensão econômica convive com os vínculos religiosos e culturais da festividade.

Também existem os encontros festivos, a música, o arraial e as celebrações paralelas. Alguns chamam esse lado de “pagão”. A palavra, porém, precisa de cuidado: a festa fora da liturgia não transforma toda alegria em afronta, nem autoriza confundir outras religiões com ausência de fé. Há diferenças entre a celebração católica, a diversão popular e as práticas de outras tradições. Reconhecê-las ajuda a compreender a cidade sem diminuir ninguém.

Na religiosidade amazônica, encontros históricos entre referências católicas, indígenas e africanas produziram aproximações e ressignificações. O sincretismo faz parte dessa história, embora não descreva a crença de todos os participantes. Há quem viva uma devoção estritamente católica; há quem traga outras referências espirituais; há quem participe pelo afeto à família e à terra.

Nenhuma dessas pessoas precisa abrir mão de sua consciência para respeitar a outra.

A intolerância religiosa fere justamente essa possibilidade de convivência. Uma oração perde sua beleza quando é acompanhada do desprezo pela crença alheia. Ninguém deveria ser humilhado por venerar uma imagem, por não venerá-la, por pertencer a um terreiro, a uma igreja ou por não professar religião alguma. A cidade que oferece água ao romeiro pode oferecer respeito a quem segue outro caminho.

E caminhos não faltam no Círio. A devoção percorre águas e estradas, acompanha motocicletas e bicicletas, atravessa a noite da Trasladação e reúne a grande procissão do domingo. Há romarias que acolhem diferentes formas de participação, até que o Recírio anuncie a despedida. A festa se espalha porque a experiência de seus participantes também é diversa.

Na Romaria das Crianças, essa continuidade ganha rostos pequenos. Entre mãos dadas, colo e passos ainda curtos, a tradição encontra uma nova geração. Uma criança talvez não compreenda ainda o significado de uma promessa. Compreende, porém, a mão que a protege, a música que escuta e a emoção no rosto de seus pais. Um dia, poderá reconhecer nessas lembranças o começo de seu próprio vínculo com outubro.

A Romaria da Acessibilidade acrescenta uma lição indispensável: participar exige condições concretas. Criada para acolher pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, ela incorpora recursos e apoio que tornam a experiência mais acessível.

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Ali, o acolhimento ganha espaço, tempo e atenção. Uma cadeira de rodas, uma interpretação em Libras, uma orientação adequada ou o respeito à sensibilidade de alguém podem abrir um caminho antes difícil. A dignidade de quem participa precisa acompanhar cada gesto da celebração.

Ao final, quando as ruas começam a recuperar seu movimento habitual, permanece uma espécie de claridade. O reconhecimento do Círio pela UNESCO, em 2013, registra sua importância como patrimônio cultural imaterial. Mas sua permanência também depende de coisas miúdas: a receita ensinada, a história contada, a promessa lembrada, o brinquedo de miriti preservado, a criança acolhida, a diferença respeitada.

Para muita gente, outubro marca uma passagem íntima do ano. Há o tempo de esperar o Círio, o tempo de vivê-lo e o tempo de guardar o que ele deixou. Mesmo quem mora longe reconhece esse chamado quando a saudade aperta e a memória devolve o cheiro da cozinha, a voz da família e o colorido das pequenas embarcações de miriti.

Na casa, ainda há comida para oferecer. Na sala, a conversa demora. Alguém precisa partir e promete voltar.

Antes da despedida, vem o abraço e aquela saudação que, em outubro, parece carregar uma casa inteira:

— Feliz Círio!

Américo Sena
Enviado por Américo Sena em 10/10/2026
Alterado em 10/10/2026
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